Agrupamento de Escolas Agualva Mira Sintra

D. Domingos Jardo – o patrono da DDJ

Domingos Anes lhe chamaram os pais no baptismo; só mais tarde se acrescentou ao nome o apelido “Jardo”, por ter nascido na povoação da Jarda, hoje Agualva. Assim, pelo seu cognome, Domingos Anes tornou famosa a sua terra natal. Por conseguinte, Domingos Anes Jardo, mais conhecido simplesmente por Domingos Jardo, nasceu em princípios do século XIII (cerca de 1230), muito provavelmente na agora denominada Quinta dos Lóios. Faleceu em Lisboa, a 16 de Dezembro de 1293. Domingos Anes nasceu de pais pobres, tendo aprendido a ler e a escrever com o pároco de Belas, o qual, dizem as crónicas, lhe admirava os dotes de inteligência e vaticinava brilhante futuro. Com cerca de catorze anos de idade, o esperto moço fugiu de casa de seus pais e, como não encontrasse em Lisboa onde prosseguir os estudos, rumou em direcção a Paris, cuja universidade era já então frequentada por numerosos estudantes estrangeiros. Em Paris, o futuro Bispo de Évora e Lisboa, ter-se-á acomodado em casa de outro estudante português a quem dava explicações a troco do alojamento. Domingos Anes seguiu certamente o programa de estudos estabelecido nos estatutos daquela universidade. Numa primeira fase, aprendeu as Artes, espécie de curso preparatório para as Faculdades, que incluía as disciplinas do chamado Trivium (Gramática, Retórica, Dialéctica) e do Quadrivium (Aritmética, Música, Geometria, Astronomia). Depois da licenciatura em Artes, que demorava seis anos, teve então acesso à Faculdade de Teologia, que terá frequentado cerca de doze anos (como era habitual), findos os quais estava apto a explicar o texto latino da Bíblia e Livro das Sentenças de Pedro Lombardo – as duas obras base daquele curso. Domingos Anes aproveitou a estadia em Paris para se formar também em Cânones, cuja faculdade era de frequência livre. Ao tempo em que o Jardo foi estudante na universidade de Paris, e que se calcula entre 1245 e 1263 aproximadamente, foram mestres na cátedra de Teologia, individualidades como São Boaventura e Tomás de Aquino. É provável que, durante a sua permanência naquela cidade, Domingos Anes Jardo tenha também conhecido o famoso Pedro Hispano, grande vulto da cultura medieval e único papa português (João XXI). Outra hipótese que é difícil comprovar levanos a supor que terá conhecido em França o Conde de Bolonha, futuro D. Afonso III, que aí se encontrava desde 1227 e que regressou a Portugal em 1246, sendo aclamado rei em 1248. Demonstrado está que, pouco depois de voltar à sua pátria, Domingos Jardo foi nomeado conselheiro e capelão-mor do rei e preceptor do infante D. Dinis. Em Évora durante quatro anos, D. Domingos Jardo revelou-se um grande prelado e exímio homem de Estado. Por isso, em Outubro de 1289, o Papa Nicolau IV transferiu-o para a capital do reino, nomeando-o agora bispo da Sé de Lisboa, cargo que ocuparia até à sua morte. Depois, seria designado para o cargo de chanceler-mor, usualmente reservado a ilustres letrados ou legistas, como era de facto o seu caso. Todas as ordens régias deveriam passar pelas suas mãos. O reinado de D. Dinis durou 46 anos (1279-1325). Foi um período muito fecundo e, em muitos capítulos, dos mais decisivos da História de Portugal. Foi então que se fixaram definitivamente as fronteiras do Reino. Garantiram-se esses limites com a construção de numerosos castelos. Desenvolveu-se a agricultura e promoveu-se a florestação do território (o célebre Pinhal de Leiria é disso bom exemplo). Procurou-se a fixação da população. Deu-se voz ao povo (em 1285 o rei mandou reunir as Cortes de Lisboa). Nasceu em Portugal a poesia e a cultura das Letras. Em 1290, o rei Lavrador e Trovador mandou fundar os Estudos Gerais, que deram origem à Universidade, em Portugal. Também a presença e a acção de D. Domingos Jardo, preceptor e também conselheiro do rei, foi, na corte de D. Dinis um importantíssimo factor. É notável a acção de Domingos Anes Jardo no fomento da cultura. Em 1286, fundou um colégio para estudantes pobres, como ele próprio tinha sido, em Paris. Foi, provavelmente, o bispo Jardo quem sugeriu ao rei D. Dinis a criação da Universidade de Lisboa, com pedido feito ao papa em 1288 e autorizado em 1290. Note-se que a bula do Papa Nicolau IV atribuía ao Bispo de Lisboa a faculdade de conceder o grau de licenciatura aos futuros estudantes. Domingos Jardo possuía uma das raríssimas bibliotecas da sua época. Além dos livros que haviam sido de Durando Pais, seu antecessor no bispado de Évora, tinha vários livros de Teologia e de Direito Canónico e Civil. Possuía todos os volumes das Súmulas e o Aparato de Inocêncio III, como refere no seu testamento. Foi o Jardo, sem dúvida, um destacado representante da nova classe de letrados e legistas que então surgiu.

Um cronista escreveu que todo o Reino sentiu profundamente a sua morte por ser “querido do povo, estimado por elRei D. Dinis pela sua inteireza e grande conhecimento de negócios”. Lisboa chorou o seu Bispo e, muito principalmente, “os pobres, que nele sempre encontraram amparo, e as viúvas abrigo, e os órfãos pai”.

In DDJornalices, Edição Especial, fevereiro de 2005